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25 janeiro 2013

jardim



Sei de um jardim
Silencioso, terno, imenso
Onde os passos se perdem numa íntima melodia
E o corpo cede espaço à Essência
Sentindo-a vibrar a cada nota
Libertando as máscaras e os freios
Sendo una numa dança,
Em acordes de aurora,
Em linhas douradas que escrevem
Esse som inaudível das pétalas
Que vertem do coração ligeiras como sorrisos,
E árduas como lágrimas do ego sucumbido,
Nos vertiginosos instantes
Em que rodopia.

E todos os medos se dissolvem
Ébrios, leves, diáfanos
Como chuva que se funde
Em gotas perfumadas e radiosas,
E neste lugar finda o desejo de fugir,
E como numa valsa dócil,
Que ondula, e sacode suave e rítmica,
A voz da mente deseja pousar o seu poder,
Na calma e harmónica energia
De estar em si.

É que aqui, é aqui
É aqui que as causas se dissipam,
É aqui que as tormentas e os prazeres,
Os apegos e as paixões,
As ilusões e as desilusões,
E as histórias sem propósito se recolhem.

E é nesta intensidade simples e límpida
Neste instante, agora,
Que se contemplam as doces sementes da compaixão,
E se toca o ameno âmago da consciência,
Que revela o fragrante e humilde botão do Ser,
E a vontade pura de ficar,
De saber que está no seu lugar.
É neste jardim…


01 junho 2012

pétalas de jacarandá

 ontem
a brisa enrolava as pétalas
que num tapete violeta
sopravam um sonho
dissolvendo-o em tragos
de fumo e de cor, perdidos
 no medo de me deixar ir
no medo de me entregar
no medo de me magoar
no medo de dar em vão
...

o medo é a escolha certa
para manifestar o que não se quer
marejar de olhos embaciados
.....

agora
são estames dourados
brilho de flor
rolam, voam, flutuam
metarmofoseiam-se
numa luz nova
lançando o ânimo de Ver
o fresco
...
prefiro ter medo de dias felizes
medo de rodopiar
medo de me sentir leve
medo da alegria
...
e permitir que sejam estes
os medos
que se soltam em cristalinos lilás
da singela gruta
do meu coração

14 maio 2012

essência Mailinii

 as minhas lágrimas são sempre cheias
tanto quanto aberto é o meu sorriso

aperto a mão quando toco
e perco-me no teu Ser quando te abraço

ouso amar apaixonadamente a Vida
e sou na inocência 
sincera no revelo

no ecoar fértil da verdade
apenas velo levemente o meu sentir
para que um toque, não toque de demais
e uma palavra menos doce
não desfaça a minha sensível confiança

sou na essência tímida e autêntica
e comovo-me com a simplicidade 
e o brilho puro da tua Alma

25 abril 2012

espanto

 chove
e ainda assim só vejo gotas de vida
lágrimas cintilantes de nuvens oníricas
que presenteiam o solo
com promessas de abundância

oiço 
este som que reconheço rítmico
a vibrar persistente no meu peito
e nos olhos cerrados sinto
o espanto,
a ingenuidade,
e a certeza de que os homens voam,
as fadas existem,
e amanhã será um dia melhor,
porque hoje já o é.

23 março 2012

uma ode à Primavera

 Primavera águas mil,
em vez de andar dançava os passos que tomo da rua,
escorrega de mim o movimento,
quando deixo o corpo ser a música,
acto que verte a graça e a doçura,
gotas, pétalas, luz dourada em golfadas,
torrente que tomo,
rio em que fluo e deixo fluir.

e estas couraças singelas
quebram-se ao murmúrio,
vento benfazejo,
ar de palavra, no fogo do amor forjada
cinzas, húmus, semente sadia,
broto viçoso, promessa
do agora revelada.

tranquilo o mito,
dissolve-se na taça que se esvazia,
louvor ao Tempo,
de ter e ser fé de criança.
olhos mergulhados na inocência
de um toque, de um gesto,
de uma flor que se colhe,
e recolhe,
no mundo de histórias,
de contos,
de uma mais
Primavera.

12 março 2012

consciência pele

 consciente,
desenham-se palavras
no livro do corpo,
que iluminam recantos,
e a textura suave da pele.

a flor do entendimento
desabrocha,
e as suas fragrantes pétalas,
dissolvem a ignorância,
libertam o sofrimento,
validam a escolha.

dedos roçam o sentir do saber.
e a água orlada dos olhos,
veste-se de alegria, 
rola de alívio,
estremece grata e livre
adornada de compaixão.

 




28 fevereiro 2012

elo eterno

nos éons da matriz
reverbera este elo,
laço multidimensional,
que se une através de camadas de tempo
e névoas de memória.

toque que acorda o sentir
e desperta a alma,
em meia palavra
ou meio sorriso,
nu de máscaras,
para quem vê a essência.
elo de mel,
sedoso, aromático,
baunilhado,
livre dos preconceitos
e das ideias pobres
de quem se alcança apenas a si mesmo.

eterno o reconhecimento,
veludo do espírito,
que suave afaga
a leveza revelada
de um amor,
só amor,
com sentido.
 

14 fevereiro 2012

aurora

 doce semente alada,
limiar de um sonho que repousa,
imune à intempérie dos ciclos,
no silêncio tece a palavra,
vertigem, rodopia na suave vitória,
como nuvem que se enrola no vento

sopro,
divino,
liberto ao ar,
gérmen do som articulado,
edificador de dimensões,
liberta a luz,
que inspira o despertar,
génese codificada
da Vida, do Amor
que rejubila
em manifestar-se

seja qual for o Tempo
a promessa mantém-se
e a esperança renova-se
no delicado brilho da aurora

02 fevereiro 2012

ser com som

  toco a serenidade
do momento,
instante em que cedo a mim mesma,
e me reconheço no rosto,
traço de expressão,
de todos os espelhos
em que tenho o privilégio
de ver reflectida

faz jus
à minha melodia,
timbre do meu ser,
que se molda em novos acordes
sempre que ressoa
no contacto de outra luz,
outra pele

vibra esta corda interna,
empática com uma outra música interior,
e envolve-se no conhecer
de um novo som
que acresce,
expande,
ilumina sombras violáceas,
de fogo por brilhar,
em chamas catárticas

e o frémito 
que se repercute
na entoação única do meu ser
renova-se
a cada célula que nasce
e que recorda a vibração,
memória síntese,
que emite o tom
de quem sou

30 janeiro 2012

eternidade

 vida.
palavra com som dentro,
na qual refugiamos esperanças,
emaranhamos temores,
dissolvemos soluções.
que faríamos da vida
se os seus dias 
não tivessem tempo?
que faríamos da geometria do ser
sem contarmos segundos,
e guardarmos memórias?

morte.
palavra com medo dentro.
que seríamos nós sem ela?
o que pode ser a morte, 
senão outra vida?
faria sentido a eternidade?
se soubesse hoje que sou imortal,
que sou eterna,
que já não mais a morte me assombra...
que faria?
haveria esta vontade,
esta paixão em vivenciar,
em deglutir experiências?

haveria tempo...
sem urgência.
e se sou já perene,
para quê a pressa?
já estou onde queria chegar.

20 janeiro 2012

flâneur

 em modo de 'flâneur'
sonho com os pés
nos degraus aleatórios
de nome Lisboa

e linhas do horizonte
deitam-se verticais,
trazendo o Céu e a Terra 
num Tempo único,
em que este Lugar cristaliza
a luz morna e viva.

e é no sabor do sal
que inspiro,
nesse brilho que marulha,
nesse canto suave, de vento fraco,
que a inspiração me engole,
devolvendo sons 
às palavras implumes,
que saboreio e verto,
no cálice límpido
do meu interior.

16 janeiro 2012

copa da receptividade


vaso, taça, copa da receptividade
Graal inconquistado,
castelos que em brumas ofuscam,
 fortalezas do conhecimento...

princesas acorrentadas na Torre,
ocultas e guardadas 
pelos Dragões Mágicos,
veladores de virtudes,
potenciadores da sabedoria,
nascida de casta contenção...

flor que se revela no sentir,
que intui e partilha,
em empatia sonhadora,
que toca emoções,
gérmen da vida.

pontas dos dedos,
em brisa de toque,
que falam ao porvir,
que comunicam
no olhar,
que se despem em vitória,
na certeza de Receber,
de Manifestar,
de Criar,
o Novo Ser.

ubique

 sou ubíqua.
cruzam-se tantos universos na minha mente,
quantos na realidade do meu poder manifesto.

e a surpresa pode surgir,
quando num sonho me reencontro com outros eus,
que procuram...
que procuram como eu,
saberem quem são afinal,
nas linhas cruzadas dessas existências multiplicadas

e são estes momentos de espelho -
Alice perdida no reflexo -
que despertam constelações de memórias,
prontas para se dissiparem,
no suspiro do reconhecimento.

sou ubíqua e presente,
e como as gotas de orvalho,
que condensam o Tempo,
e estou hoje, agora, aqui,
quando falo,
para ti.

02 janeiro 2012

haram

delicado caminho,
suave luz dourada,
que recuso agora em inspirar

é que no tempo se perdeu a história,
nas cordas da vida 
desgastada

peregrino na solitude de quem sabe
que largar o passado é frutuoso,
e apenas na fé me seguro
para co-criar a matriz
desta prometida ventura

haram,
porta do céu


23 dezembro 2011

todos os dias

 todos os dias
a promessa instala-se no núcleo vibrante
de cada célula do meu corpo.

todos os dias
a oportunidade revela-se, 
vestida de dor ou de prazer,
contendo a certeza de crescimento.

todos os dias
a melodia do Cosmos desperta
o melhor que há em mim,
para verter em carinho, suave e velado,
a minha bênção sobre o Mundo.

todos os dias,
contém o milagre de poder ser outra,
de poder reinventar-me, 
criar de raiz e Ser plena.

todos os dias,
dissolvo na água a memória,
e polarizo ponteiros virtuosos
para o agora.

todos os dias,
sinto na ausência, a presença,
deliberadamente indelével

todos os dias
sou o fogo que arde sem se ver,
que alimenta de entusiasmo
a Vida manifesta, 
neste meu canto de existência.

todos os dias,
me despeço de quem fui,
sem medos, apegos ou pressões,
porque ouso, na modéstia,
abrir um universo,
no meu coração.

06 dezembro 2011

amanheceu

 amanhecer 
nas linhas sinuosas de uma palma
que cruza os seus caminhos
num sentir que sem ser seu, é

longo o olhar que se perde
no frágil e morno orvalho humano
que num suspiro liberta devaneios
o sabor da Vida que se preenche
num rio de mistérios

e esse calor de um Sol
que luz no toque de uma brisa
que sabe o caminho do meu Ser
mastiga a dor saborosa
numa só palavra

amanheceu

04 dezembro 2011

lascas

 ouvir as horas...
soltam-se lascas de apego
que se enchem do vazio do Mundo,
apenas por instantes...
sabiamente a Matriz exala
pétalas douradas de um Amor Maior
que ocupam, com graça,
formas que fluem
para se encontrarem em contornos
do novo,
que tudo toca,
quando a liberdade preenche e purifica
as teias da memória

29 novembro 2011

linha

linha do horizonte oculta,difusa
cerro os olhos que traçam
- com as linhas do pensar -
uma linha suave, bússola

detém-me, mantém-me, restaura-me o equilíbrio
neste mundo inclinado.

e é desta visão interna saudável
que respiram os meus poros, 
o prana que reinicia, 
que sou a cada pestanejar
e mantém-me numa frescura do ver
que se encanta ainda,
mesmo com as linhas oblíquas sentidas
no toque virtual desta cidade.

hoje

conteúdo, contexto, textura,
fazem-se carne num sorriso,
num Ser que traz o pleno do Mundo
ao Sol interior dos meus dias

22 novembro 2011

tempo agora

 sou de um Tempo, que mede contos, não minutos.
lampejos que definem estados de vida,
entre o cinzento dos dias que se olvidam.

sou de um Tempo, que conta gotas de orvalho
em manhãs felizes.
em que se tece a matriz da vivência em tragos de luz,
e em tragos de sombra que espelham o contraste do reconhecimento.

sou de um Tempo, sem Cronos.
deita-se num recanto de cor a deidade que descansa os seus minutos vãos.

sou de um Tempo, de agora.
que sente contudo, o ontem tanto, 
e que suspira o porvir com alento.

sou de um Tempo, que tempera.
debruçada na janela do cosmos,
que nasce na minha mente,
sinto o vibrar, das águas que convergem em elixir.

sou de um Tempo, que constrói muralhas de pétalas,
espirais de som criativo, contornos de amor.

sou de um Tempo, que no Tempo se perde,
e a palavra memória é transparente,
sem fundo, conteúdo ou semente.